Apresentação

A Revista Domingueira da Saúde é uma publicação semanal do Instituto de Direito Sanitário - IDISA em homenagem ao Gilson Carvalho, o idealizador e editor durante mais de 15 anos da Domingueira da Saúde na qual encaminhava a mais de 10 mil pessoas informações e comentários a respeito do Sistema Único de Saúde e em especial de seu funcionamento e financiamento. Com a sua morte, o IDISA, do qual ele foi fundador e se manteve filiado durante toda a sua existência, com intensa participação, passou a cuidar da Domingueira hoje com mais de 15 mil leitores e agora passa a ter o formato de uma Revista virtual. A Revista Domingueira continuará o propósito inicial de Gilson Carvalho de manter todos informados a respeito do funcionamento e financiamento e outros temas da saúde pública brasileira.

Editores Chefes
Áquilas Mendes
Francisco Funcia
Lenir Santos

Conselho Editorial
Élida Graziane Pinto
Marcia Scatolin
Nelson Rodrigues dos Santos
Thiago Lopes Cardoso campos
Valéria Alpino Bigonha Salgado

ISSN 2525-8583



Domingueira nº 05 - Fevereiro 2024

A polêmica sobre vacinar ou não crianças contra a Covid-19

Por Carmino de Souza


Estamos assistindo nestes últimos dias e semanas uma tremenda e, a meu ver, inadequada polêmica que foi gerada pela consulta pública promovida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) aos médicos do país a respeito da inclusão da vacina anticoronavírus no grupo pediátrico de seis meses a cinco anos no PNI (plano nacional de imunizações).

Não há qualquer sentido ou objetivo científico nesta consulta, apenas a opinião da comunidade médica sobre o assunto.

A meu ver, esta consulta poderá trazer mais confusão e insegurança à sociedade.

Há pelo menos dez vacinas contra a covid-19 aprovadas e utilizadas pela OMS em escala bilionária (isto mesmo, bilhões de pessoas), para as quais foram emitidas recomendações de uso e que são produzidas por diversos laboratórios públicos e privados e com eficácia comprovada contra a doença. Alguns países têm vacinas diversas a estas aprovadas em seus países.

As aprovações destas vacinas são feitas após rigorosa avaliação de dados clínicos fornecidos pelos fabricantes e os centros de pesquisa onde os estudos foram realizados. No Brasil, temos em mente o trabalho do Instituto Butantan com a vacina Coronavac e a Butanvac (ainda em desenvolvimento) e da Fiocruz em sua parceria com a Astra Zeneca.

Quando há qualquer dúvida sobre a segurança e/ou eficácia, a vacina não recebe recomendação e/ou autorização.

Estas vacinas têm se mostrado altamente eficazes na prevenção de doenças graves, hospitalização e mortes contra todas as cepas do vírus incluindo a variante Ômicron e suas sub linhagens. Além disto, têm sido muito eficazes na transmissão do vírus, embora possam não impedir completamente da infecção.

As vacinas são, portanto, muito eficazes e deram uma extraordinária contribuição para limitar a transmissão do vírus. Entretanto, nenhuma vacina é 100% eficaz na prevenção da doença COVID-19, mas, os sintomas são mais leves ou ausentes nas pessoas que são infectadas.

Nesta mesma coluna, em 22/03/2022, eu e a Dra. Andrea Von Zuben assinamos um artigo que discutiu o assunto às luzes da época: “Por que não vacinar as crianças”.

Para contextualizar o tema devemos lembrar que a COVID-19 foi responsável por 5310 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e 135 mortes em crianças menores de cinco anos no Brasil, apenas em 2023. Foram ainda notificados 2103 casos de Síndrome Inflamatória Multi-sistêmica Pediátrica, manifestação tardia da COVID-19 nesta faixa etária.

Em relação as vacinas no grupo pediátrico contra à Covid-19, não temos dúvidas sobre sua absoluta necessidade e de seus resultados imensamente favoráveis. As sociedades brasileiras de Imunizações (SBIm), Pediatria (SBP) e Infectologia (SBI) posicionaram-se em documento técnico mostrando que os benefícios da vacinação na população de crianças de 5 a 11 anos, superam os eventuais riscos associados à vacinação.

Nos estudos realizados, houve demonstração de eficácia de 90.7% para a prevenção da Covid-19 e não foram observados nestes estudos eventos adversos graves associados à vacinação, com um perfil de reatogenicidade favorável.

Nos EUA, com a análise de 4% da população pediátrica, durante as ondas das variantes Delta e Ômicron, demonstrou a eficácia de 74,3%contra a infecção, 75,5% contra casos moderados e graves e 84,9% contra episódios que demandaram tratamentos em UTI.

As crianças, como sabemos, foram “poupadas” em um primeiro momento pelo seu isolamento social e pela característica da doença que se mostrou mais grave em grupos etários mais avançados e pessoas portadores de imunossupressão dos mais diversos tipos.

No entanto, embora pouco falado, de acordo com os dados oficiais do Ministério da Saúde, a carga da doença na população brasileira de crianças é relevante, incluindo até o momento milhares de hospitalizações e centenas de mortes pela Covid-19 neste grupo etário, além de outras já demonstradas consequências da infecção em crianças, como a Covid-19 longa e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), todas elas de potencial gravidade em crianças.

É nossa obrigação e dever proteger as crianças. Nossas crianças tiveram prejuízos intangíveis não indo para as escolas ou mantidas fora de suas atividades de vida normal e de relação social.

Neste momento, com a vacinação de todos os adultos e com as medidas de proteção não farmacológicas amplamente conhecidas e eficientes, as crianças devem sim ser imunizadas. Não seríamos irresponsáveis de levar estas informações se tivéssemos dúvidas ou desconfianças relevantes. Vacinar nossas crianças é nossa obrigação. Elas dependem de nós, de nossa lucidez, compromisso e responsabilidade.

Como vimos na história da vacina Sabin, devemos acreditar na ciência, nas suas informações e na sua constante evolução. Não podemos crer em notícias viciadas e maldosas que não nos ajudam. Interpretar adequadamente os resultados científicos é sempre um desafio pois exige conhecimento e maturidade.

Na medicina e na biologia sempre teremos pontos de discussão. Isto é saudável e necessário pois tudo evolui e pode mudar, mas não deve turvar ou bloquear o que devemos fazer em favor de nossa sociedade.

Vacinem suas crianças! Não se deixem enganar ou iludir por notícias falsas ou cujos interesses não sejam os mais nobres e de interesse público.

A história dará todos os créditos aos nossos cientistas, aos profissionais de saúde e àqueles que estão lutando para superarmos, ainda que com grande dor, esta crise sanitária.

Não há qualquer razão para não vacinarmos as nossas crianças. Creiam nisto, como nós acreditamos no Dr. Sabin em passado recente e que mudou para melhor a vida de nossas crianças e de nossa saúde pública. Façamos a nossa parte!


Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022 e atual Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan. Diretor científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).




OUTRAS DOMINGUEIRAS