Apresentação

A Revista Domingueira da Saúde é uma publicação semanal do Instituto de Direito Sanitário - IDISA em homenagem ao Gilson Carvalho, o idealizador e editor durante mais de 15 anos da Domingueira da Saúde na qual encaminhava a mais de 10 mil pessoas informações e comentários a respeito do Sistema Único de Saúde e em especial de seu funcionamento e financiamento. Com a sua morte, o IDISA, do qual ele foi fundador e se manteve filiado durante toda a sua existência, com intensa participação, passou a cuidar da Domingueira hoje com mais de 15 mil leitores e agora passa a ter o formato de uma Revista virtual. A Revista Domingueira continuará o propósito inicial de Gilson Carvalho de manter todos informados a respeito do funcionamento e financiamento e outros temas da saúde pública brasileira.

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ISSN 2525-8583



Domingueira Nº 12 - Abril 2022

Índice

  1. Por que não vacinar as crianças? - por Carmino de Souza e Andrea Von Zuben

Por que não vacinar as crianças?

Por Carmino de Souza e Andrea Von Zuben



Foto: José Cruz/Agência Brasil

Vou começar este texto com um relato vivido por mim em 1994. Neste ano, exercia o cargo de Secretário de Saúde do Estado de São Paulo. O Brasil recebeu nesse ano o certificado de país “livre da poliomielite”, fato absolutamente auspicioso tendo em vista que essa ainda é uma doença que nos assola, mesmo estando em 2022, em países da Ásia, África e mesmo nas Américas. Nestas festividades e eventos, recebemos a visita da Sra. Heloisa Dunshee de Abranches, esposa do Dr. Albert Sabin. Infelizmente, o Dr. Sabin havia falecido aos 86 anos no ano anterior (*1). A Sra. Heloisa, fundadora do Instituto Sabin de Vacinas, faleceu em 2016 aos 98 anos. Foi uma grande honra e aprendizado estar com ela.

A poliomielite ou paralisia infantil, é uma doença causada por vírus e afeta o sistema nervoso central promovendo, principalmente, a paralisia dos membros inferiores. O Dr. Sabin foi o primeiro a demonstrar o crescimento deste vírus em amostras de tecidos humanos. Sabin desmentiu a hipótese de que o contágio do vírus se dava pelo nariz e apontou como via primária o trato gastrointestinal. Defendeu a administração dos vírus vivos e atenuados por via oral com a objetivo de promover a imunidade mais duradoura e comunitária quando comparada a injeção de vírus mortos, desenvolvida, pouco tempo antes, pelo Dr. Jonas Salk.

Importante e fundamental, é que isto não aumentava os riscos de contaminação e de doença. O Dr. Albert Sabin esteve várias vezes no Brasil acompanhando pessoalmente o combate à poliomielite. Em 1967 foi agraciado pelo governo brasileiro com a Grã-Cruz do Mérito Nacional. Em 1973 foi instituído no Brasil o plano nacional de imunizações (PNI), que permanece até hoje, sendo um dos programas em saúde mais exitosos de nosso país.

Mas porque estou contando esta história? Quando esteve conosco em 1994, em conversas informais, a Sra. Heloisa me contou que “nem tudo foram flores” neste relacionamento entre o Governo Brasileiro e o próprio Dr. Sabin. Como temos assistido na introdução das vacinas contra o SarsCov2 para o grupo pediátrico, houve muito dúvida e insegurança na introdução da vacina Sabin, nova e com um modo de ação muito próprio e inédito.

A história mostrou, posteriormente, que a vacina Sabin revolucionaria o enfrentamento da poliomielite e abriu as portas para todas as outras vacinas e ao PNI, criando uma cultura que nunca mais foi modificada no Brasil. A Sra. Heloisa nos disse que na véspera da primeira campanha em larga escala de utilização da vacina Sabin, o então ministro da saúde do Brasil ligou para o Dr. Sabin e disse que o Conselho de Estado do Brasil estava reunido e estava inseguro sobre se deveríamos ou não fazer esta campanha. O Dr. Sabin teria dito ao ministro: “Ministro, o Sr. só tem duas alternativas: confiar em mim ou não confiar em mim. Se não estão confiando, por favor, parem tudo”.

Obviamente, seria confiar na ciência e no cientista. Pois bem, nada foi suspenso e tivemos o sucesso impressionante das vacinas no Brasil, com melhoria de todos os indicadores de saúde nas crianças a partir de então e a eliminação da poliomielite em nosso meio. Assim como “ontem”, devemos confiar na ciência e nos cientistas e entregar a eles a responsabilidade da evolução fundamental a vida e ao bem-estar de nossa população.

Em relação as vacinas no grupo pediátrico contra à Covid-19, não temos dúvidas sobre sua absoluta necessidade e de seus resultados imensamente favoráveis. As sociedades brasileiras de Imunizações (SBIm), Pediatria (SBP) e Infectologia (SBI) posicionaram-se em documento técnico mostrando que os benefícios da vacinação na população de crianças de 5 a 11 anos, superam os eventuais riscos associados à vacinação. Nos estudos realizados, houve demonstração de eficácia de 90.7% para a prevenção da Covid-19 e não foram observados nestes estudos eventos adversos graves associados à vacinação, com um perfil de reatogenicidade favorável.

As crianças foram “poupadas” em um primeiro momento pelo seu isolamento social e pela característica da doença que se mostrou mais grave em grupos etários mais avançados e pessoas portadores de imunossupressão dos mais diversos tipos. No entanto, embora pouco falado, de acordo com os dados oficiais do Ministério da Saúde, a carga da doença na população brasileira de crianças é relevante, incluindo até o momento milhares de hospitalizações e centenas de mortes pela Covid-19 neste grupo etário, além de outras já demonstradas consequências da infecção em crianças, como a Covid-19 longa e a síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), todas elas de potencial gravidade em crianças.

Não resta dúvida de que devemos vacinar toda a humanidade, cada grupo a seu tempo. Como pais, avós ou responsáveis pelas nossas crianças, não podemos nos furtar em vaciná-las. É nossa obrigação e dever protege-las. Nossas crianças tiveram prejuízos intangíveis não indo para as escolas ou mantidas fora de suas atividades de vida normal e de relação social. Neste momento, com a vacinação de todos os adultos e com as medidas de proteção não farmacológicas amplamente conhecidas e eficientes, as crianças devem ser imunizadas e voltar a vida praticamente normal.

As escolas não podem fechar mais. Subtrair isto delas, não é justo, correto ou desejável. É importante que nós profissionais da saúde e da ciência possamos transferir a confiança que os pais e a população nos pedem. Não seríamos irresponsáveis de levar estas informações se tivéssemos dúvidas ou desconfianças relevantes. Vacinar nossas crianças é nossa obrigação. Elas dependem de nós, de nossa lucidez, compromisso e responsabilidade.

Como vimos na história da vacina Sabin, devemos acreditar na ciência, nas suas informações e na sua constante evolução. Não podemos crer em notícias viciadas e maldosas que não nos ajudam. Interpretar adequadamente os resultados científicos é sempre um desafio pois exige conhecimento e maturidade.

Na medicina e na biologia sempre teremos pontos de discussão. Isto é saudável e necessário pois tudo evolui e pode mudar, mas não deve turvar ou bloquear o que devemos fazer em favor de nossa sociedade.

Vacinem suas crianças! Não se deixem enganar ou iludir por notícias falsas ou cujos interesses não sejam os mais nobres e de interesse público.

A história dará todos os créditos aos nossos cientistas, aos profissionais de saúde e àqueles que estão lutando para superarmos, ainda que com grande dor, esta crise sanitária. Façamos a nossa parte!

Não há qualquer razão para não vacinarmos as nossas crianças. Creiam nisto, como nós acreditamos no Dr. Sabin em passado recente e que mudou para melhor a vida de nossas crianças e de nossa saúde pública.


(1)- Biografia de Albert Sabin (e-biografia) por Dilva Frazão, biblioteconomista e professora.


Carmino Antonio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020.

Andrea Von Zuben é doutora em saúde coletiva e diretora do Departamento de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas.


Fonte: Artigo publicado no Hora Campinas em 28 de março de 2022.




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